Por Rochelle Cysne Frota D'Abreu

Demorei uma eternidade para conseguir enxergar com clareza. Apesar do divórcio relâmpago e caótico que vivi, e de toda a dor que marcaram meu matrimônio, precisei de uma longa jornada interior para admitir a verdade mais simples e complexa: eu jamais deixei de amar meu esposo. Sempre o procurei, inconscientemente, nos olhos de outros homens, numa busca silenciosa por seu rosto, seu jeito, um eco daquela conexão que se perdeu.

Houve, sim, paixões passageiras. Chamas que acendiam com intensidade, mas cujo combustível era mais a solidão do que a verdadeira entrega. Não duravam mais que três meses, porque eram, no fundo, um esforço desesperado para preencher um vazio que ele, e só ele, ocupava. Era a tentativa fútil de quem não consegue, nem sabe como, passar uma borracha no passado. Aceitar que se sofreu imerecidamente é uma das fatalidades mais duras da condição humana, um golpe do destino ao qual muitos estão sujeitos.

Com o tempo, fui entendendo que o verdadeiro heroísmo cristão – aquele que exige uma força sobre-humana – não reside em perdoar o que qualquer um perdoaria. A grandeza está em perdoar o que o mundo inteiro julga ser imperdoável. É um perdão que não busca aprovação, que não depende da reciprocidade ou da compreensão alheia. É um ato de libertação interior, feito na solidão de uma alma que se reconcilia com Deus.

E então, algo mágico acontece: o amor se restaura. Não da forma mundana e possessiva de antes, mas ele renasce e passa a viver em outra esfera, num exílio deste mundo. É um amor que não busca a provação ou o entendimento das pessoas. Ele simplesmente é. É um patrimônio da alma que ninguém mais pode tocar ou destruir.

Nesse patamar, você finalmente se reconcilia com a sua própria história. Aceita o que aconteceu sem se sentir vítima das circunstâncias. Compreende, com uma lucidez que dói e acalma ao mesmo tempo, que o sofrimento existiu dos dois lados, ainda que quiçá por razões radicalmente distintas. E pronto. Há uma paz nessa aceitação.

Você revive a sua eternidade matrimonial de outra forma. Agora, ninguém – nem as leis dos homens, nem as traições, nem a ausência física – pode lhe negar o direito de querer viver a essência daquele matrimônio até a eternidade. Porque o vínculo que foi selado naquele altar transcende a falibilidade humana. Vocês estiveram diante de Deus e prometeram um amor eterno. E naquele momento sagrado, tudo aquilo foi divinamente verdadeiro.

E se foi verdadeiro diante d'Ele, o tempo, as calamidades ou os mal-entendidos são impotentes para declarar que aquilo um dia foi falso. A verdade daquele juramento está guardada na eternidade, impermeável à corrosão do mundo. Porque estavam ali, diante de Deus. E o que Deus uniu, a memória fiel e o amor redimido ainda mantêm unido, em um reino onde o passado não passa, mas se transfigura em eternidade.

 

 

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